Um leitor de Copacabana nos escreveu em maio: recebeu proposta de "conta zero" em agência da Zona Sul, mudou o salário para o novo banco e, no segundo mês, encontrou cobrança de pacote de serviços e tarifa de TED que o gerente não mencionara. Não era fraude — era leitura seletiva da proposta comercial. Para evitar repetir o episódio, montamos um método de comparação que qualquer pessoa pode aplicar antes de assinar portabilidade de salário ou fechar conta nova.
Não ranqueamos bancos nem recebemos comissão de instituição financeira. Descrevemos o processo que usamos em reportagem, com dados públicos do Banco Central e tabelas divulgadas pelas próprias instituições em junho de 2026.
Por que "conta grátis" raramente é grátis
Bancos brasileiros podem cobrar por pacotes de serviços desde que informem previamente e respeitem contas básicas previstas em norma. Isenção costuma depender de requisitos: saldo mínimo, aplicação em CDB com liquidez diária, uso do cartão de crédito com fatura mínima, ou combinação desses fatores. O gerente destaca a isenção; o contrato detalha as condições que a derrubam.
No Rio, onde concentração de agências é alta na orla e na Barra, a pressão comercial por portabilidade de salário é intensa em março e abril — meses de renegociação de metas. Checar antes de assinar é especialmente útil nessa janela.
Passo 1: extraia seu extrato real dos últimos três meses
Liste cada tarifa cobrada: manutenção de conta, pacote, TED, DOC, saque em rede 24h, segunda via de cartão, anuidade. Some. Esse é seu custo efetivo atual — não o que você acha que paga. Muitos correntistas subestimam porque tarifas pequenas passam despercebidas entre débitos automáticos.
Passo 2: mapeie seu padrão de uso
Quantos TEDs por mês? Usa cheque? Precisa de saque físico ou só Pix? Mantém saldo parado ou aplica excedente? Cartão de crédito do mesmo banco é requisito de isenção? Respostas honestas evitam contratar pacote dimensionado para outro perfil.
Comparar bancos sem conhecer seu próprio extrato é como trocar de plano de celular sem olhar a fatura — você repete o erro com nova logomarca.
Passo 3: peça tabela de tarifas por escrito
Solicite ao gerente ou canal digital a tabela vigente do pacote ofertado, com condições de isenção. Salve PDF. Verifique no site do Banco Central o comparador de tarifas (Registrato e ferramentas de transparência) para cruzar informações. Divergência entre discurso comercial e tabela é sinal amarelo.
Passo 4: simule o custo mensal
Monte planilha simples — papel ou software — com colunas: banco atual, banco A, banco B. Linhas: manutenção, TEDs (multiplique quantidade × tarifa unitária), saques, anuidade de cartão, custo de não manter saldo mínimo. Some totais. Inclua custo de oportunidade se isenção exige aplicar valor que você precisaria usar.
Em nosso teste com três instituições de grande rede no Rio, diferença anual entre pior e melhor opção para o mesmo perfil chegou a R$ 840 — valor que justifica meia hora de planilha.
Passo 5: portabilidade e vínculos escondidos
Portabilidade de salário é direito, mas financiamentos, débito automático e Pix chave vinculada à conta antiga não migram sozinhos. Antes de fechar conta, liste compromissos. Alguns bancos condicionam isenção a prazo mínimo de permanência do salário — leia cláusula de fidelidade do pacote.
Conta digital versus agência física
Fintechs e bancos digitais costumam ter tarifas menores, mas atendimento presencial é limitado. Se você deposita cheque com frequência ou precisa de gerente para operações atípicas, economia tarifária pode custar tempo. Para moradores da região metropolitana do Rio que usam predominantemente Pix e cartão, perfil tende a favorecer digital — desde que a instituição tenha registro no BC e proteção de fundo garantidor.
Quando reclamar
Cobrança de tarifa não informada ou divergente da contratada pode ser questionada no banco e, se não resolvida, no Banco Central (registrato.bcb.gov.br) ou Procon. Guarde contrato, tabela e extratos. Prazo de resposta do BC em reclamações contra instituição financeira costuma ser mais longo que mediação de consumo comum, mas funciona para padrão de cobrança abusiva reiterado.
Resumo prático
- Some tarifas reais dos últimos três meses
- Defina padrão de uso (TED, saque, saldo, cartão)
- Exija tabela por escrito e cruze com dados do BC
- Simule custo total, não só manutenção de conta
- Verifique vínculos antes de portar salário e fechar conta
Trocar de banco por promessa de "zero tarifa" sem planilha é decisão cotidiana que milhões tomam — e que muitos lamentam no segundo extrato. O Right Brasil publica este método para que a checagem venha antes da assinatura, não depois da cobrança.